Há coisas que não entendo. Tenho uma característica por muitos considerada boa mas que eu não sei como a considerar.
Todos os meus amigos são mais velhos que eu. Todas as pessoas com quem costumo sair ou conversar são mais velhas que eu. A média de idades dos meus amigos deve estar entre os cinco e os dez anos mais velhos que eu. Ou até mais. A sério que gostava de ter amigos da minha idade. Mas não consigo. Ou melhor, consigo sair com pessoas da minha idade e conviver com eles. O que não consigo é ter grandes conversas com eles. Preciso de ter algum interesse intelectual pelos meus amigos. E só consigo saciar esse interesse com pessoas mais velhas.
Desde muito nova que é assim. Sempre fui precoce. Com 10 anos li o meu primeiro livro de Saramago e com 9 o primeiro de Brecht. Com 12 anos comecei a interessar-me por Marx e pelas ideologias que defendia. Desde muito pequena que gosto de música clássica ou de Bossa Nova. Desde muito pequena que me interesso por exposições, debates, museus, teatro e literatura. Nunca vi o Titanic na vida, mesmo que todas as pessoas da minha turma lhe achassem tanta piada. Em vez disso, via Almodover, Godard, Woddy Allen, Coppola, Foreman, Resnair, Fellini.
Ou seja, não tive uma infância dita normal. Deixei de brincar com bonecas desde muito cedo. Tinha contacto com os problemas dos meus amigos, de forma que perdi a minha inocência cedo demais. Ainda nem no auge da minha infantilidade estava e já tinha perdido toda a inocência e toda a pureza.
Houve duas características que nunca perdi e fui construindo e reconstruindo com o tempo: utopia e vontade de lutar. Foi o que sempre me deu esperança.
Até há bem pouco tempo, não via mal nenhum ter amigos tão mais velhos, ter inclusive amigos trinta anos mais velhos que eu. São pessoas interessantíssimas com uma história revolucionária e que, para além de terem a minha admiração, têm o meu interesse e o meu gosto de debater com elas. Como dizia anteriormente, foi há bem pouco tempo que comecei a perceber as consequências desta precocidade toda. Às vezes quero ser infantil ou inocente e, mesmo que me esforce para o fazer ou para não pensar em nada durante algum tempo, não consigo. Percebo que é irracional e que não é correcto. Tornei-me demasiado politicamente correcta, nestes aspectos. Percebi que mesmo admirando muito estas pessoas e tendo laços muito fortes com elas, somos diferentes. Eles tiveram uma infância que eu não tive. Levaram mais ao longo da vida do que eu alguma vez irei levar. Criei protecções e auto-defesas mais cedo. Antes que alguém as tentasse quebrar.
Tenho um carinho enorme por todos os meus amigos. Mas também tenho a noção das diferenças. E às vezes o problema é deixar de as ter. Porque sempre fui apologista que o número do b.i. é a coisa mais insignificante numa pessoa. E é. Os percursos de vida é que não. Mas ao mesmo tempo só me sinto bem com eles, com os diferentes grupos que fui criando de pessoas mais velhas, de pessoas intelectualmente muito interessantes, para mim. Foram eles que me ensinaram grande parte do que sei, muitos foram os meus mentores nalguns temas, mentores bem sucedidos que sem eles seria difícil saber o que sei hoje. Mentores bem sucedidos devido, também, ao meu espírito crítico. Outra característica que desenvolvi desde cedo.
E neste momento não sei o que fazer. Percebi que somos diferentes. Mas não é por isso que não gostamos uns dos outros. Ou que não conseguimos ter conversas muito produtivas. E nunca me trataram como uma "criancinha" ou como a "menina do grupo". Provavelmente porque também não o sou. Só num papel.
Sabes, isso tem vantagens e desvantagens. Acho que tu as entendes pela maneira como escreves. Não faço ideia da tua idade mas não é mau. Eu gosto de crescer, eu gosto de estar com pessoas mais velhas, eu gosto de ter conversas "minimamente" produtivas.
ResponderEliminarTens qualidades que gostava de ter, sabes? O teu espírito crítico, não que eu saiba como é, mas da maneira que o dizes ter, agrada-me. Não o tenho tanto como gostava mas tenho, um pouco. Mas notasse, algum em ti bastante forte e bastante racional.
"Criei protecções e auto-defesas mais cedo." até gostei mas isso acaba por não ser bom, nada mesmo.
p.s: Deste-me a vontade de escrever sobre algo que me têm feito pensar à muito tempo. Obrigado!
ResponderEliminarComo eu te compreendo! Finalmente encontro alguém com os mesmos problemas que eu... Também sempre gostei mais da companhia dos mais velhos, já desde que era pequeno. Não posso dizer que tenha perdido a minha infância, mas tenho noção que fui e sou diferente das outras pessoas da minha idade com quem cresci. Sei que perdi algumas experiências que as outras pessoas da minha idade adquiriram ao longo da sua infância, mas ganhei outras que as poderão compensar. E há medida que vou fazendo novas amizades e que vou crescendo, reparo que as pessoas com quem mais me dou, os meus grandes amigos, são todos mais velhos que eu, entre 1 a 20 anos a mais que eu.
ResponderEliminarOops, um erro!
ResponderEliminar"E à medida que..." ;)
Marta, reconheço-me no que escreveste...♫°♥º*
ResponderEliminar°♥º♫° *·.
**.•♥•
.•♥•
°º♫° ·.
.•♥•
°º♫° ·.
.•♥• bjos.